Postagem em destaque

Que tal publicar um livro?

Por mais que as redes sociais sejam veículos eficazes para a transmissão de conhecimento nos dias de hoje, o melhor canal para materializar ...

sexta-feira, 2 de julho de 2021

A arte: expressão do indivíduo sujeita à expressão dos outros indivíduos


Em seu primeiro ensaio, o jornalista, escritor e crítico cultural Carlos Eduardo Amaral problematiza os confrontos entre as visões de mundo de artistas, críticos de arte e do público

Uma obviedade: todos temos necessidade de expor nossos pontos de vista sobre a arte, ou de buscar e apurar as referências para fruí-la (ou consumi-la, como se queira). Os artistas, por sua vez, almejam conquistar e ampliar público, bem como aparecer na mídia, mas alimentam reservas contínuas em relação à crítica, independente do real mérito que uma exposição crítica tenha.

Essas ressalvas são justificadas ou apenas mecanismos de defesa? A crítica especializada deve ser levada em conta como uma casta com o conhecimento necessário para orientar o público, independente das questões de gosto das pessoas, ou é meramente uma parcela constituinte dele (com acesso à mídia ou maior reverberação nas redes sociais)? O crítico ou o público deveria conhecer o mínimo sobre arte, antes de opinar?

A discussão é antiga e de farta bibliografia, porém merecia uma breve atualização, que o autor decidiu empreender, a princípio, muito mais para seu círculo social e afetivo do que para o público em geral.

“Havendo iniciado minha carreira como crítico musical e depois passado à criação artística – como compositor, arranjador e escritor de ficção –, acabou tornando-se imperativo que eu reunisse minhas reflexões e experiências pessoais e profissionais nesse eixo – da arte à crítica, passando pelo público – e as transformasse em um pequeno livro”, diz Carlos Eduardo Amaral.

O jornalista escreveu Ide em paz: Um ensaio sobre arte e crítica de arte ao longo de outubro de 2020 e fez pequenos acréscimos durante a revisão do texto, na primeira quinzena do mês dezembro seguinte. Trata-se de um breve ensaio, ora expositivo, ora provocativo, destinado a um amplo público-alvo: estudantes de jornalismo e artes, artistas, críticos e, claro, o público em geral.

Entender as perspectivas de cada um desses públicos-alvo e apresentá-los aos demais, para contribuir para aquela visão de conjunto que se perde com o cotidiano, foi a base para a estruturação dos sete capítulos da obra, abertos por epígrafes de Millôr Fernandes, um dos maiores diatribistas e aforistas brasileiros:

  • Introdução
    • Uma exposição do autor sobre sua carreira e as motivações do livro.
  • Diferença entre resenha, análise, crítica e ensaio
    • ...sobre os principais gêneros textuais que hão servido de veículo à crítica artística.
  • Preciso ter cultura geral?
    • ...sobre a óbvia resposta positiva.
  • Brodagem e reivindicações
    • ...sobre a liberdade de consciência para a apreciação e a reflexão acerca da arte.
  • A opinião do leigo conta?
    • ...sobre o exercício de julgamento do público em geral.
  • Um bom artista é um bom crítico?
    • ...sobre as competências de artistas que contribuem para o campo da crítica.
  • Se você preparar um release
    • ...sobre a relação dos artistas com a imprensa para uma boa divulgação de sua produção.

O livro já se encontra à venda pela Amazon.


O AUTOR

CARLOS EDUARDO AMARAL (Olinda, 1980) é jornalista, crítico musical, escritor, compositor, arranjador, pesquisador e mestre em Comunicação pela UFPE como bolsista da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe). Na mesma universidade, graduou-se em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo e concluiu pós-graduação lato sensu em Jornalismo e Crítica Cultural.

Como pesquisador, foi agraciado com prêmios da Fundação Nacional de Artes (Funarte), da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e do antigo Ministério da Cultura; organizou a Coletânea de crítica musical – Alunos da UFPE (edição independente, 2010); colaborou com o livro O ofício do compositor (Editora Perspectiva, 2012) e apresentou trabalhos acadêmicos sobre música e ativismo político, no Canadá, e música armorial, na Argentina.

Como escritor e crítico musical, publicou pela Cepe Editora cinco livros-reportagem que têm como protagonistas compositores referenciais da música pernambucana (os quatro últimos compõem o selo Frevo, Memória Viva, idealizado pelo autor):

  • Clóvis Pereira – No Reino da Pedra Verde (2015)
  • Maestro Formiga – Frevo na tempestade (2017)
  • Maestro Duda – Uma visão nordestina (2018)
  • Getúlio Cavalcanti – Último regresso (2018)
  • Jota Michiles – Recife, manhã de sol (2019)

Como compositor, escreveu mais de trinta peças para instrumentos solistas, conjuntos de câmara e orquestra sinfônica. É também autor de ficção, tendo lançado dois romances e um livro de contos como editor independente.


SERVIÇO

[LITERATURA]

Título: “Ide em paz: Um ensaio sobre arte e crítica de arte”

Autor: Carlos Eduardo Amaral

Editora: Edição independente

Número de páginas: 52

Vendas pela Amazon

 

PRESS KIT

       Fotos do autor e capa do livro: http://www.mediafire.com/folder/5g3fl6kzck6h8/Sem_gado_-_press_kit

       Capítulo de degustação: https://issuu.com/carloseduardoamaral/docs/ide_em_paz_-_cap_tulo_4

terça-feira, 23 de março de 2021

Svetlana Alexiévitch: uma escritora que merece ser lida

Foto: Reuters / Reprodução

Há cerca de três semanas comecei a leitura de A guerra não tem nome de mulher.

Desde que Svetlana Alexiévitch ganhou o Nobel de Literatura, em 2015, fiquei com vontade de conhecer sua obra.

Não haveria de ter sido à toa que uma jornalista, uma escritora de não-ficção, recebesse um prêmio desde Winston Churchill, em 1953 – este, por seus memoráveis discursos.

E compreendi por que foi merecido.

Sua narrativa é uma junção de dezenas de depoimentos dispostos tematicamente, não sob tópicos estabelecidos de forma racional, senão afetivos.

A autora pouquíssimo intervém ou se expressa – mesmo nas páginas iniciais, onde ela marca mais presença. E, quando o faz, nunca julga ou opina: apenas narra, reflete, evoca diálogos e lembranças.

O resto é uma sucessão de depoimentos cortantes e doloridos, alguns mais esperançosos e emotivos. A narrativa está presente como um negativo de filme: não precisamos acompanhar a voz da autora o tempo todo.

Ela está em silêncio, mas sempre ali, ao longo das páginas, como uma documentarista cinematográfica que vai escolhendo os takes e definindo a ordem e a duração deles, sentada e trancada em uma ilha de edição por intermináveis semanas.

Como as linguagens do cinedocumentário nos são familiares, não nos causa nenhuma estranheza essa voz literária de Svetlana.

Pelo contrário, só ajuda a ouvir as testemunhas/personagens com um maior grau de afinidade – nada comparável, claro, ao da entrevistadora.

Ora os depoimentos ocupam diversas páginas, ora alguns parágrafos; a grande maioria, individuais, com algumas personagens tendo seus nomes usados, aparentemente sem critérios, como títulos de subcapítulos; uns poucos, numa roda de conversa, sem identificação precisa das participantes.

Um mapa do recorte da vida que escolhemos destrinchar, em suma.

Até mesmo, no presente texto, abdiquei do meu estilo mais coeso e denso de escrever, a fim de fazer fluir mais rapidamente as minhas impressões.

Vou tê-lo concluído em cerca de uma hora (sim, sou muito lento e, como acontece com a maior parcela das pessoas, o pensamento sai mais veloz do que a digitação, e sem disciplina).

Nunca tive interesse por livros de guerra, muito menos da II Guerra Mundial, mas fui feliz em meu primeiro contato comprometido com o tema ter sido com um livro tão fora da caixa e humano.

E pra quem quer conhecer como é o pensar da própria Svetlana, seguem quatro indicações selecionadas de leitura e escuta, colocadas de forma gradual: 

  1. Um resumo de sua trajetória e de seus livros (cinco dos seis que ela escreveu*, estão traduzidos para o português).
  2. Um perfil, publicado no jornal El País.
  3. Uma entrevista escrita, em que ela detalha sua ótica de mundo e suas motivações.
  4. E sua inesquecível participação no Flip 2016, onde os brasileiros tivemos a oportunidade única de ouvi-la de perto.

* Na entrevista do terceiro link, ela cita cinco livros, mas há um não editado em língua portuguesa. Não sei o porquê da omissão ao sexto. Por sinal, é essa citação que quero deixar como epígrafe final, pois resume sua missão literária e jornalística:

Escrevi cinco livros, mas na verdade, a vida inteira tenho escrito um único livro: uma enciclopédia do “homem vermelho”, da “utopia vermelha”, dessa vida que chamávamos de socialismo.

Conheça mais sobre os grandes nomes do frevo: http://editora.cepe.com.br/autor/carlos-eduardo-amaral

sábado, 19 de setembro de 2020

Comentários sobre referências e estilística em "Sem relva" – não contidos no "Poslúdio"





[Recorte de texto dirigido a uma resenhista literária recifense, que terminou de ler Sem relva hoje. O mote inicial foi o porquê dos títulos dos capítulos estarem em italiano]

Pois bem. Via de regra, os capítulos de Sem relva, como o de tantos e tantos romances por aí, a exemplo dos de Saramago, poderiam muito bem não ter título nenhum, e o leitor não perderia nada com isso – e não perdem, em Sem relva, por não saberem italiano.

No entanto, os títulos obviamente têm uma razão de ser e são ao mesmo tempo um tributo.

A razão de ser foi um desafio autoimposto: praticar a polifonia narrativa, definindo qual o tipo de narrador de cada capítulo. Assim, uma ária (solo vocal operístico) indica que um personagem foi escolhido para ser o narrador daquele capítulo; no arioso, um personagem narra só uma pequena parte do capítulo; em um recitativo ou em uma cavatina, esse personagem narraria todo um capítulo, porém mais curto que os demais. Uma cena sinaliza que a fala fica com o narrador em terceira pessoa; em um duo ou trio, esse narrador onisciente foca em dois ou três personagens; em um eventual balé, vários personagens são mostrados en passant...

O tributo é à ópera como gênero artístico. Em Sem relva, à ópera italiana; nos dois romances seguintes da trilogia, às óperas francesa e alemã, perfazendo uma homenagem às três grandes escolas operísticas da História das Artes.

As falas em italiano nos títulos dos capítulos de Sem relva, como as que virão nos dois últimos romances da trilogia, em francês e alemão, servem como força-motriz da dramaticidade dos respectivos capítulos. Nesse sentido, elas nunca estarão traduzidas, porque não serão ditas por nenhum personagem, são força-motriz mesmo, pois a dicção daquelas falas soa operística, elas abrem possibilidade uma para possível adaptação para esse gênero, mas não que eu tenha intenção.

Um exemplo é o capítulo final, que [...] deveria se chamar [os que terminaram o livro me procurem em privado, caso queiram saber]. [...] Ao mesmo tempo é uma referência pop a uma imagem que é das mais temidas de hoje em dia no Brasil [...]. 

Revelo alguns easter eggs (mas não este acima) em um e-book que disponibilizei a quem tivesse interesse. Os cinquenta primeiros que compraram a edição impressa ganham uma edição caseira desse opúsculo, que serve para facilitar a compreensão geral do enredo e a progressão da narrativa, considerando que eu escrevo não pensando só em leitores letrados, mas também em quem não é leitor habitual de romances (ou de romances mainstream).

Sem relva, por fim, é a síntese da fórmula para a busca de minha voz literária e de meu estilo narrativo: densidade e elaboração quando a fala é do narrador em terceira pessoa, como se fosse eu próprio dissertando ou me enxerindo na história; limpeza e linguagem direta quando são os personagens a falar; progressão não linear que desvela uma cronologia clara ao passar dos capítulos, como numa espiral; recorrência à linguagem jornalística para dar ares de veracidade a determinadas situações; disposição de paráfrases pops e eruditas em mesmo pé de igualdade; uso de geoletos pernambucanos e socioletos sem neurose quanto a futuras oportunidades de tradução.

Era um romance que tinha de nascer.

***

Acréscimo feito em 06/02/2021: Há um erro crasso no título de um dos capítulos ao qual só fui atinar quando questionado pela resenhista. Ela pediu a um amigo que traduzisse todos os títulos e ele, naturalmente, disse que possivelmente havia um erro na palavra "saldremo". De fato, só então me dei conta que fiquei prisioneiro de um trompe l'oeil (engana-olho) linguístico, que afeta quem estuda italiano e espanhol. Respondi-lhe, via e-mail, em 17 de setembro do ano passado (e deixo aqui registrado):

"Se não fosse você, agora, nunca ia perceber esse equívoco. Foi erro crasso meu, de confusão entre o italiano e o espanhol: o certo é 'La città della quale usciremo, "A cidade da qual sairemos". Todos os títulos de capítulos são em italiano. [...] Na edição impressa, infelizmente não há o que fazer, mas no e-book eu já tinha feito uma revisão de cabo a rabo pós-publicação, mas vejo agora esse erro de processamento mental de falante português/espanhol que aprende italiano e troca os verbos salire (subir) e uscire (sair). Mesmo assim, não seria salire, nem o equivalente na conjugação, saliremo."